Uma Breve História da Taxonomia – Parte 1: Primórdios e Antiguidade Clássica

Dar nome às coisas sempre foi uma necessidade durante toda a história da humanidade. Ao nomear algo, reconhecemos objetos ou seres e os incorporamos ao nosso cotidiano. É exatamente disso que se trata a Taxonomia, o meio por qual damos nome e agrupamos organismos dentro das ciências biológicas. Vários critérios diferentes de classificação dos seres vivos foram adotados ao longo dos tempos, desde a importância econômica, tipo de ambiente em que viviam ou semelhanças nas formas. Mas como eram feitas essas classificações? Seriam elas válidas atualmente? Quais critérios são utilizados atualmente?

Ao dar nome às coisas, o ser humano se apropria delas. Elas passam a fazer parte da cultura, do cotidiano, das posses das pessoas. Hoje em dia, isso é bem mais difícil. Quando nascemos, a maioria das coisas com as quais teremos contato em nossa vida já tem um nome definido.Adriana Baggio

A taxonomia (do antigo grego τάξις (taxis), que significa “arranjo” e -voya (-nomia), que significa “método”) é uma disciplina acadêmica que define e nomeia os grupos de organismos biológicos, com base em características compartilhadas. Esses agrupamentos ou Táxons, seguem uma classificação hierárquica na qual podem ser agregados para formar agrupamentos maiores de acordo com o grau de parentesco. Além do conceito que acabamos de definir, também existem outros termos e definições como Taxonomia Alfa e Beta, Micro e MacroTaxonomia que não serão discutidos aqui.

A história da taxonomia remonta à origem da linguagem humana. Há quem diga que a Taxonomia seja a “profissão mais antiga do mundo” devido a importância de nomear e classificar as coisas para a comunicação e também para saber quais plantas e animais eram comestíveis, venenosos ou representavam algum tipo de perigo. No entanto, as primeiras classificações baseavam-se na observação direta dos indivíduos, que eram agrupados de acordo com utilidade, hábitat ou forma. Mas, imaginemos quanta confusão não deve ter ocorrido? Uma lagarta é totalmente diferente de uma borboleta tanto em importância econômica, quanto em hábitat e  forma,  entretanto são duas fases da vida de um mesmo ser. Com os trabalhos de Lineu (o pai da taxonomia moderna) a taxonomia adquiriu uma caracterização cada vez mais convergente com o paradigma da evolução. Desta forma, a história da Taxonomia está aqui dividida em três períodos, Os Primórdios e Antiguidade Clássica, o Renascimento e o período Pós-Lineano. Veremos a partir daqui os primeiros registros de classificação biológica até os últimas obras documentadas da antiguidade clássica. Em posts futuros traremos a retomada da Taxonomia no renascimento até as metodologias mais recentes baseadas em cladística.


Os Primórdios da Taxonomia

     1 – Shennong, o Imperador Vermelho – China – (~3000 a.C)

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Shennong (神農)

Shennong (Em chinês: Shen-nung, 神農; japonês: Shinno, 神農; em coreano: 신농, Sinnong; e em vietnamita: Thần Nông), cujo nome significa literalmente Divino Agricultor. Também conhecido como o Imperador Vermelho, foi um lendário governante e herói do povo chinês. Há muita mitologia assossiada à figura de Shennong, que é visto como pai da agricultura e da medicina chinesa, credita-se à ele a autoria de uma das primeiras farmacopeias do oriente, escrita por volta de 3000 a.C. a qual conteve informações relacionadas à agricultura e medicina. Acredita-se também que o autor tenha provado centenas de plantas com o objetivo de aprender o seu valor medicinal.

Conhecida como Bencaojing 神農 本草 經 (em Tradução Livre o “Clássico do Santo Lavrador de raízes e ervas“) a obra do imperador se trata de textos antigos sobre ervas médicinais. O livro foi perdido durante o período Tang 唐, mas consideráveis partes do texto original foram reconstruídas a partir de fragmentos e compilações de textos médicos e enciclopédias que frequentemente citavam a obra, sendo atualmente a farmacopeia chinesa mais antiga, parcialmente sobrevivente. O livro começa com uma introdução teórica contendo informações sobre classificação de material medicinal e suas regras de aplicação. A parte principal do livro incluía descrições breves de 365 objetos médicos, dentre os quais constavam 252 plantas, 67 partes de animais e 46 materiais inorgânicos. Cada medicamento era classificado de acordo com sua eficiência, em três categorias, sendo elas as qualidade superior, qualidade mediana e as de qualidade inferior.

Como eram pouco conhecidas pelo mundo ocidental até a Idade Média, as obras orientais não tiveram grande influência na Taxonomia, mas são obras de grande valor histórico e científico que ainda têm grande influência nas tradições orientais.

     2 – Papiros Medicinais – Egito – (~1550 a.C)

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Papiro Ebers

A medicina do Antigo Egito está entre as mais antigas práticas de medicina documentadas, sendo extremamente avançada para a sua época. Suas práticas incluiam um vasto estudo de farmacopeias. Todo esse conhecimento teve grande influência em tradições posteriores, o que inclui os gregos e romanos.

Existem vários textos antigos escritos em papiros que permitem vislumbrar procedimentos e práticas médicas no Egito. Os papiros fornecem detalhes sobre doenças, diagnósticos e tratamentos que incluem remédios feitos com plantas, cirurgias e rituais mágicos. Dentre estes, O Papiro Ebers é um dos tratados médicos mais antigos e importantes do Egito antigo, sendo datado de aproximadamente 1550 a.C. Neste tratado, as plantas são incluídas como medicamentos para diferentes tipos de doenças e são identificadas por nomes locais como “Aipo da região montanhosa” e “Aipo do delta“, espécies de Apiaceae que os médicos egípcios deveriam ser capazes de reconhecer em campo.


Gregos e Romanos

     3 – Aristóteles – Grécia – (384–322 a.C)

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Busto de Aristóteles – Cópia romana de uma escultura de Lisípio

Até onde se sabe, o filósofo grego Aristóteles foi o primeiro a classificar os seres vivos na taxonomia científica ocidental. Fortemente influenciado pelas ideias Essencialistas de seu professor, Platão; ele dividiu os seres em dois grupos: animais e plantas, que teriam subgrupos organizados de acordo com o ambiente em que viviam, sendo caracterizados como aéreos, terrestres ou aquáticos. Em seu sistema de classificação os animais também eram classificados pelo tipo de reprodução e pelo tipo de sangue, sendo alguns de seus grupos ainda válidos hoje, como os vertebrados e invertebrados, que correspondem em parte ao que ele chamava de animais “com sangue vermelho” e “sem sangue vermelho”. Aristóteles também dividiu os animais de sangue vermelho em vivíparos e ovíparos e formou grupos dentro dos animais sem sangue vermelho que reconhecemos hoje, como insetos, crustáceos e moluscos.

É com o Aristóteles que são estabelecidas ideias que serviram de influência para vários cientistas, como o próprio Lineu, que criaram sistemas baseados nos conceitos de Genus (grego — origem, descendência, gênero) e Eidos (grego — aspecto exterior, forma, modo de ser). Esses termos indicam posições em uma hierarquia: um nível mais geral e abrangente que inclui vários elementos é um genus; um nível mais restrito, incluído em um nível maior é um eidos. Assim, tanto na filosofia de Aristóteles quanto em suas classificações estes conceitos são relativos, já que e o que é um genus em um nível, pode ser um eidos em outro.

     4 – Teofrasto de Eressos – Grécia – (370–285 a.C.)

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Escultura de Teofrasto feita por Domenico Danè no Jardim Botâncio de Palermo, Itália

Teofrasto, outro filósofo da Grécia Antiga, foi estudande de Platão e depois de sua morte, ligou-se a Aristóteles, tornando-se seu sucessor ao presidir a escola peripatética no Liceu. De nome original Tírtamo, nasceu em Eressos – Lesbos, onde teve seus primeiros contatos com filosofia. Mais tarde, ao mudar-se para Atenas, integrou-se como membro do círculo Platônico e ficou conhecido pela alcunha de Teofrasto, que lhe foi concedida por Aristóteles, como indicativo de suas qualidades como orador.

Suas obras mais importantes em biologia são dois volumosos tratados botânicos: Historia Plantarum (História das Plantas), em nove livros (originalmente dez) e De Causis Plantarum (Sobre as Causas das Plantas), em seis livros (originalmente oito), ambas eram notas das palestras dadas por ele no Liceu. Devido a proximidade de Teofrasto e Aristóteles, com Alexandre, o Grande,o jardim do Liceu de Atenas provavelmente tinha em sua posse muitos espécimes botânicos coletados durante as campanhas militares e explorações do rei. Foi neste jardim que Teofrasto obteve grande parte de seu conhecimento botânico através de observação sistemática e experimentação com teorização racional dos espécimes mantidos no local.

Suas contribuições em botânica aplicada, iam muito além dos usos medicinais das plantas e lidavam com a classificação biológica, importância econômica, técnicas da agricultura e biologia geral. Seguindo a linha de raciocínio de Aristóteles, ele agrupou as plantas em “árvores”, “subarbustos”, “arbustos” e “ervas”. Além disso, também  fez outras várias importantes observações como: identificação de plantas anuais, perenes e bienais; distinção entre monocotiledôneas e dicotiledôneas; e destaque para aspectos da estrutura floral (grau de fusão das pétalas, a posição do ovário, etc). Teofrasto descreveu cerca de 500 plantas detalhadamente, muitas vezes incluindo descrições de habitat e distribuição geográfica, citando também alguns grupos que são reconhecidos atualmente como família botânicas válidas. Alguns termos utilizados pelo filósofo, como Crataegus , Daucus e Asparagus persistem até hoje.

Desta forma, as obras de Teofrasto seriam as primeiras exposições objetivas de anatomia, morfologia, fisiologia, reprodução, desenvolvimento e ecologia vegetal. Seus tratados constituem a mais importante contribuição para a ciência botânica de toda a antiguidade e garantiram ao filósofo a alcunha de “Pai da Botânica“, seguindo como principais referências até ao Renascimento.

Devemos considerar os caracteres distintivos e a natureza geral das plantas, do ponto de vista da sua morfologia, o seu comportamento sob condições externas, o seu modo de geração e todo o curso da sua vida“. Teofrasto – De Historia Plantarum

     5 – Pedânio Dioscórides – Grécia – (40–90 d.C.)

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Dioscórides

Dioscórides foi um autor greco-romano, empregado como médico no exército romano e notório pesquisador em física, farmacologia e botânica. É considerado o fundador da farmacognosia através da sua obra De Materia Medica, uma farmacopéia sobre plantas e outras drogas medicinais que foi a principal referência no assunto desde o século I até ao século XVIII.

De Materia Medica (em grego Περί ὕλης ἰατρικής) é uma obra dividida em cinco volumes que é precursora da farmacopeia moderna. No prefácio, o autor descreve o objetivo da obra: “Sobre a preparação, propriedades e testes das drogas“. O texto descreve cerca de 600 plantas medicinais (entre as quais está incluida a mandrágora); 35 fármacos de origem animal e cerca de 90 substâncias de origem mineral. A obra é essencialmente empírica, não seguindo nenhum sistema médico em particular. Apesar disso, ele procurou desenvolver um método para observar e classificar os fármacos, testando-os clínicamente. Esta foi uma das poucas obras clássicas que teve enorme difusão na Idade Média, sendo traduzida diversas vezes durante a história tanto no formato original em grego quanto em outras línguas, como o latim, o árabe e muitas outras.

     6 – Plínio, o Velho – Roma – (23–79 d.C.)

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Caio Plínio Segundo

Caio Plínio Segundo conhecido como Plínio, o Velho foi um historiador, naturalista e oficial romano. Foi chamado de “o apóstolo da ciência romana” devido suas contribuições à diversas áreas do conhecimento. Nasceu em Como, na Itália, no ano 23 da era cristã. Neto do senador Gaius Caecilius, ingressou na carreira militar, tornando-se oficial e chefe das tropas de cavalaria na Germânia. Estudou Direito e desempenhou diversos cargos públicos, sendo procurador na Espanha, no norte da África e na Gália durante o império de Nero. Mesmo durante as viagens fora de Roma, foi um ávido pesquisador. Escreveu uma extensa coletânea de obras abordando diferentes assuntos.

 

De todas as suas obras, a única que sobreviveu foi seu tratado denominado “Naturalis Historiæ” (História Natural), uma imensa compilação composta de 37 volumes, que contêm algumas passagens originais sobre o destino do homem na natureza. Vinda do desejo de Plínio de deixar uma contribuição romana ao conhecimento humano, que na sua época era de domínio dos gregos; a obra pretendia cobrir todo o campo de conhecimento explorado pelo homem na antiguidade clássica, e tomava por base as fontes mais confiáveis ao alcance do autor.

Apesar da imprecisão de alguns dados técnicos e matemáticos, a obra é considerada um dos melhores textos da antiguidade clássica e oferece um excelente panorama de como eram as visões de geografia, zoologia e botânica na Época. É uma das maiores obras em termos de volume que restam da Roma antiga, e ainda por cima completa. Os volumes de VIII a XI saõ dedicados à Zoologia e os Volumes de XII a XXIX apresentam temas relacionados à botânica, agricultura, horticultura e farmacologia. Nestes volumes várias plantas são descritas e nomeadas em Latim, alguns destes nomes como Populus alba e Populus nigra ainda são reconhecidos. E como o latim foi mantido na ciência botânica, Plínio é reconhecido por muitos como pai do Latim Botânico.

Aqui encerramos estra primeira parte do post. Em breve as partes 2 e 3 desta matéria serão publicadas.

 

Fontes

Publicação disponível em PDF – History of Taxonomy

Shen Nong Bencaojing – CHINAKNOWLEDGE – A universal guide for China studies

Páginas da Wikipédia sobre Medicina Egípcia – Papiro Ebers e Ebers Papyrus

Matéria do Blog Dave’s Garden – From Aristotle to Linnaeus: the History of Taxonomy

Matérias do Blog Biografias e Curiosidades – Teofrasto, o pai da botânica e Dioscórides

Matéria do EBiografia – Plínio, o Velho

Páginas da Wikipédia em Português e Inglês sobre cada Filósofo – TeofrastoAristóteles, DioscóridesPedanius DioscoridesTaxonomy e Taxonomia

Página do Infoescola – História Natural

 

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