Abelhas gigantes e os caçadores do Mel alucinógeno do Himalaia

Escondidas nas regiões montanhosas do Sul e Sudeste da Ásia vivem as Abelhas gigantes do Himalaia, as maiores abelhas do mundo. Apis dorsata laboriosa, também conhecidas como Abelhas-gigantes-asiáticas, habitam uma faixa de altitude entre 1500 e 3000 metros e constroem seus ninhos nas faces verticais de grandes penhascos. Porém, sua peculiaridade mais marcante não está em seu tamanho, e sim em seu mel alucinógeno, um tóxico poderoso muito apreciado pelo mercado, pelo qual os nativos arriscam suas vidas no processo de extração.

O Nepal é um país muito rico em recursos naturais. As grandes diferenças de altitude em seu território compõem uma grande variedade de biomas, entre eles savanas tropicais, florestas de coníferas e campos de montanhas. Isso resulta em uma das maiores biodiversidades do planeta, a qual é muito bem representada por vários grupos animais como os insetos por exemplo.

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Mani Lal Gurung, descansando após extração de mel. Uma abelha Apis dorsata laboriosa pousou em seu rosto. (Imagem: Eric Valli)

Existem pelo menos quatro espécies de abelhas diferentes no país. Apis cerana, Apis florea, Apis dorsata e a abelha européia Apis mellifera que foi introduzida para a produção de mel. Dentre as abelhas nativas, apenas A. cerana pode ser mantida em colmeias domesticadas, enquanto que as outras só podem ter seu mel extraído de seus ninhos na natureza. Alguns estudos consideravam a existência de uma outra espécie chamada A. laboriosa, que vive em altitudes mais elevadas que A. dorsata devido à diferenças no comportamento. Porém, estas abelhas são morfologicamente idênticas, sendo então classificadas como duas subespécies: A. dorsata dorsata e A. dorsata laboriosa. Ambas as subespécies são altamente adaptadas aos habitats montanhosos e são bastante agressivas, apresentando um comportamento conhecido como “defense wave” ou onda de defesa. Seus ninhos são formados por um único favo vertical que chega a medir um metro quadrado e conter 60 quilos de mel, eles são constituídos em lugares expostos e bem longe do chão, como troncos de árvores ou saliências rochosas em penhascos.

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Comportamento defensivo de “onda de defesa” em abelhas

Estas espécies desempenham um papel vital na manutenção da biodiversidade nas áreas montanhosas, sendo as principais polinizadoras naturais da vegetação selvagem e das plantas cultivadas da região. Além disso, grandes quantidades de mel e cera são produzidas por estas abelhas nativas, sua extração representa uma contribuição importante na subsistência e manutenção do estilo de vida das comunidades remotas locais. Vários povos sobrevivem da extração sustentável destes produtos naturais, suas técnicas, rituais e ensinamentos são passados de pai para filho há milhares de anos. Os famosos e destemidos homens de Gurugung, uma tribo oriental do Nepal, arriscam suas vidas duas vezes ao ano para coletar o precioso mel. Depois de extraídos estes produtos são vendidos, sendo uma boa fonte de renda para estes povos.

Existem três tipos de mel produzidos por estas abelhas: O “Mel de primavera extraído em altitudes elevadas, também chamado de “Mel vermelho” ou “Mel louco”; o “Mel de primavera” extraído de altitudes mais baixas e o “Mel de outono”, que pode ser extraído em qualquer altitude. O mel de primavera de baixas altitudes e o mel de outono têm bons valores de mercado, porém bem menores que o do mel vermelho. São produzidos a partir de várias fontes de néctar diferentes, apresentam sabor forte e qualidades orgânicas boas. Porém o que faz o mel vermelho ser bem mais valorizado que os outros tipos de mel?

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Mapa de distribuição das comunidades locais com pontos de extração de colmeias de A. d . laboriosa.

O mel vermelho é produzido a partir do néctar de algumas espécies de Rododendros e Acônitos, flores com substâncias tóxicas que só crescem em altitudes superiores a 2000 metros. A maioria das espécies de Rododendros contém uma substância conhecida como graianotoxina, muito tóxica para os seres humanos. Esta substância é componente do mel vermelho e confere a ele efeitos intoxicantes e alucinógenos, que em doses baixas causam sensações de tontura, formigamento e relaxamento descritas como agradáveis pelos usuários. Porém, em doses mais altas os efeitos tóxicos são potentes, causando náuseas, vômitos, fraqueza muscular, convulsões, irregularidades na atividade cardiorrespiratória e até mesmo a morte. Entretanto, as substâncias intoxicantes do mel decaem com o tempo de armazenamento, revelando também propriedades medicinais que são empregadas no combate à diabetes e hipertensão, incluindo efeito afrodisíaco. Normalmente o mel vermelho não é consumido pelos nativos devido seu alto valor comercial (Alguns povos como os Rai, são exceções, pois não vendem o mel devido seu uso terapêutico).

Apesar das propriedades do mel das abelhas do Himalaia, há relativamente pouca literatura científica sobre seus efeitos no organismo humano. Também há uma falta significativa de informações sobre o status populacional das abelhas nativas, e sua relação com as tradições de extração do mel, meios de subsistência e conservação da biodiversidade. Estes problemas são agravados pela transferência da posse de penhascos de várias comunidades para o governo, que vem abrindo direitos de extração para várias empreiteiras que buscam lucrar com a grande demanda destes produtos. Como resultado, as técnicas tradicionais e os rituais que asseguravam uma coleta sustentável estão sendo substituídas por técnicas agressivas que removem grande parte dos ninhos e causam decréscimo das populações de abelhas.

Documentário “Hallucinogen Honey Hunters – Hunting mad honey”

Vídeo “360° Dangerous Honey Hunting (4K)” National Geographic

 

Fontes:

 

Páginas da Wikipédia: Apis dorsata e Apis dorsata laboriosa

Página da National Geographic News: Himalaya Honey Hunters Cling to Cliffside Tradition

Matéria da Obvious Magazine: HONEY HUNTERS | A CAÇA AO LÍQUIDO DOURADO NOS PENHASCOS DO HIMALAIA

Publicação da ICIMOD (International Centre for Integrated Mountain Development (ICIMOD): The Himalayan Cliff Bee Apis laboriosa and the Honey Hunters of Kaski: Indigenous Honeybees of the Himalayas (Volume 1 – 2003)

Vídeo da BBC sobre o comportamento das abelhas: Giant honey bees – Life in the Undergrowth

Videos extras sobre extração: Harvesting Honey from Giant Honeybees in Cambodia Dan Snow collects honey – Seven Wonders of the Commonwealth

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