Os Comedores de Terra através de um olhar adaptativo

A Geofagia é definida como vontade ou hábito de comer terra. Medicinalmente, a prática é reconhecida como uma doença caracterizada pelo consumo compulsivo e obsessivo de substâncias terrestres como cascas de parede, pedras, etc.; sendo inclusive considerada um transtorno de alimentação pelo guia padrão de referência para psiquiatras. Porém, o fato desta prática ser muito comum em animais e sociedades humanas indica a possibilidade de não se tratar de uma anormalidade e sim estratégia adaptativa muito vantajosa .

A ideia de comer terra causaria uma sensação de estranheza para muita gente, afinal sabemos que muitos seres vivos potencialmente patológicos vivem neste ambiente. No entanto esta é uma prática muito comum para vários animais. De acordo com uma matéria publicada na revista Scientific American a geofagia é observada em mais de 200 espécies de animais, incluindo papagaios, veados, elefantes, morcegos, coelhos, babuínos, gorilas e chimpanzés. Este hábito também é bem comum em várias sociedades humanas e aparentemente já existe há séculos com relatos antigos datando de 1800 a.C. em vários lugares do mundo. Sabemos que mesopotâmios e egípcios na antiguidade utilizavam a argila como tratamento medicinal, inclusive ingerindo-a para tratar várias doenças intestinais. Nos mercados gregos eram comuns as “cápsulas de saúde” feitas de terra, com supostas propriedades medicinais. Tribos africanas utilizam o barro como complemento alimentar ou alternativa à escassez de alimentos.  Os nativos americanos frequentemente utilizavam que terra como tempero em alimentos naturalmente amargos como noz de carvalho e batatas.

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Nativo ingerindo terra

Os relatos indicam que algumas tribos de nativos eram vorazes apreciadores de terra.  E que talvez quando assoladas pela fome, tentavam se alimentar do que se achavam ao seu redor. No Brasil, algumas tribos levavam o barro para suas aldeias para usar em diferentes tipos de iguarias, como: sopa de argila com pirarucu e mandioca e os bolos de barro de tribos Tupinambá. Além do barro, ingeriam terra de cupinzeiros, areia e outros tipos de solos. Relatos deste tipo de repetem para tribos do Xingú, dos Andes e vários outros grupos por toda a América do Sul. Mas a geofagia não se restringe à sociedades antigas ou grupos tribais e indígenas, ela foi praticada com frequência na Europa e seguiu por vários séculos em escritos médicos da Antiguidade, Idade Média e Renascimento. Atualmente, mulheres e crianças são os consumidores mais comuns ao redor do mundo.

Mas o que faria animais e pessoas comerem terra? Quais benefícios este hábito poderia trazer?

Existem várias teorias que tentam explicar o hábito da geofagia. Algumas atribuem à fome e escassez de alimentos, como ocorre em vários grupos humanos; outras atribuem ao auxílio que este material faria na digestão (o que é o caso de algumas aves, que ingerem pedras para moer os alimentos no trato digestivo); outras atribuem ao combate da diarreia, dores estomacais e vermes intestinaiso que vem sendo empregada há séculos em medicamentos com fórmulas minerais do solo e seus substitutos sintéticos. Dentre todas as teorias, a mais conhecida e divulgada é que determina que a geofagia como meio de suprir necessidades nutricionais na obtenção sais minerais essenciais ao organismo e ausentes nos alimentos disponíveis como ferro, cálcio e zinco. Essa ideia recebeu apoio após observar-se que as quantidades de terra ingerida por um organismo possuiriam sim eles elementos nas quantidades necessárias ao metabolismo.

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Macaco do gênero Alouatta comendo argila – Foto de Jeff Cremer

Entretanto, a pesquisadora Sera L. Young contesta este argumento como justificativa para a prática. Em sua pesquisa Young, mostra que a ingestão de terra não é capaz de oferecer quantidades consideráveis de minerais a qualquer tipo de organismo. Em seus experimentos, Young observou que dentro do organismo, no bolo alimentar, a terra misturada aos sucos  intestinais, em condições que simulam os ambiente do trato digestivo, não libera os minerais que continuam ligados à terra, inclusive atraindo os minerais do organismo. Deste modo, os níveis de sais no organismo acabariam sendo diminuídos. A exemplo que suporta a crítica está em experimentos com crianças anêmicas e geofágicas da Zâmbia. Que mesmo com o aumento de zinco na dieta comum, não pararam de comer terra.

Outra teoria vem ganhando força recentemente, uma teoria que surgiu a partir de estudos que indicam para uma função destoxificante do consumo de terra. As moléculas de argila carregadas negativamente atraem as toxinas no estômago que são  carregadas positivamente. Assim, a terra funcionaria como um ímã no sistema digestivo que barra a absorção de moléculas prejudiciais ao organismo sendo eliminadas junto com as fezes.

Existem alguns experimentos que são força à essa hipótese:

  • Exemplo 1: Existem papagaios que ingerem terra  para neutralizar alcaloides tóxicos das sementes e frutas não maduras que comem. No experimento os papagaios foram alimentados com o alcaloide tóxico quinidina com e sem a terra, após medir a quantidade de alcaloide presente no sangue depois da refeição observou-se que os pássaros que não consumiram terra exibiram níveis mais altos de quinidina no sangue. O mesmo experimento já foi realizado em  chimpanzés e babuínos.
  • Exemplo 2: Outro estudo analisou a ingestão de argila em morcegos frugívoros e insetívoros da Amazônia. Esperava-se que os morcegos que estivessem ingerindo argila por causa dos minerais, seriam em maioria insetívoros que obtém menos minerais em sua dieta que os frugívoros. Mas a maioria dos morcegos que ingeriam de argila eram fêmeas frugívoros que estavam prenhes ou amamentando. Isso significa que essas fêmeas ingeriam argila para se desintoxicar, pois estavam se alimentando mais para alimentar seus bebês, e precisavam de mais argila para remover as toxinas.
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Papagaios se alimentando em encosta argilosa

Esta nova teoria explicaria bem o uso de terra pelos nativos americanos no consumo de alimentos amargos que teriam algumas toxinas, o uso de remédios com compostos similares à argila no tratamento de infecções alimentares e a preferencia por ingestão de solo argiloso por animais e humanos.

É claro que ingerir terra também pode ser perigoso, pois expomos nosso organismo à bactérias, fungos e vermes parasitos e quantidades elevadas de chumbo e arsênico. Porém, há quem defenda que a exposição à microrganismos presentes no solo ajude nosso sistema imune a atuar mais eficientemente contra patógenos perigosos e nos proteger de doenças. No entanto a geofagia ainda não é bem compreendida e ainda se discute a validade de cada teoria e o quão satisfatórias são suas explicações.

Fontes:

Matéria da Scientific American: A Vantagem de Comer Terra

Matéria da Discover Magazine: Eat Dirt

Matéria do G1: E você? Já comeu tijolo?

Matéria da Revista Continente: O estranho hábito de comer terra

Wikipédia: Geofagia

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